Menopausa
Climatério: o que é e por que ninguém diagnostica
Você ainda menstrua. O FSH está normal. E você não se reconhece mais. A fase mais mal diagnosticada da vida da mulher — e a mais tratável.

Menopausa
Você ainda menstrua. O FSH está normal. E você não se reconhece mais. A fase mais mal diagnosticada da vida da mulher — e a mais tratável.


Mulher de 46 anos, ciclos presentes mas irregulares, FSH normal, insônia há oito meses, irritabilidade, ansiedade, libido caindo, vasinhos na perna, enxaqueca, tristeza. O primeiro médico pediu FSH, viu que não passava de 25–30 e disse “não é menopausa”. Verdade — é climatério. Mas deixou a mulher sem tratamento só porque ela menstrua. O segundo deu antidepressivo, que maquiou o problema e piorou a queixa principal. Os dois trataram a perimenopausa como se fosse um número.
Climatério é todo o período de transição entre a fase reprodutiva e a pós-menopausa. Perimenopausa é o trecho mais turbulento: os anos antes da última menstruação, quando os hormônios oscilam — pelos critérios internacionais, dura em geral de 4 a 8 anos, podendo passar de 10. Menopausa é o marco de 12 meses sem menstruar. A mulher não entra na menopausa no dia em que a menstruação para; ela já estava dentro do processo anos antes. Quando pego uma mulher dois anos depois da menopausa, calculo: ela sofre há dez.
Esqueça a menstruação. Perimenopausa é menstruando.Dr. Pablo Melo
Insônia nova, principalmente acordar de madrugada. Irritabilidade e ansiedade que não existiam. Tristeza, choro fácil, a frase “não sou mais eu”. TPM mais forte e ciclos que encurtam, alongam ou falham. Memória e foco piores — esquecer o que foi fazer, não conseguir ler um livro. Libido caindo e perda de vontade de coisas de que gostava (libido é desejo de tudo, não só de sexo). Enxaqueca. Barriga crescendo sem mudança de hábitos. Vasinhos, dores articulares, infecção urinária de repetição. E mais de 70% das mulheres não têm calorão: “não sinto nada” não exclui nada.
Na perimenopausa, FSH e estradiol oscilam muito de um dia para o outro. O exame é uma foto: pode ser tirada num dia alto, num dia baixo, ou com o hormônio preso ao SHBG. E o que produz sintoma nessa fase é a variabilidade do estradiol, não só o nível baixo. Um FSH normal não exclui nada — é o conceito que muda a consulta. A pergunta que mais ajuda: “você se sente bem todos os dias, ou tem semanas piores?”. Outra: “desde quando?” — ansiedade desde os 20 aponta para intestino; ansiedade que surgiu entre 35 e 45, para hormônio.
Segundo a diretriz norte-americana de 2019, 45% a 68% das mulheres na perimenopausa relatam sintomas depressivos elevados, contra 28% a 31% antes dessa fase; uma meta-análise de 2024 calculou risco cerca de 40% maior — e o primeiro episódio de depressão chega a dobrar, mesmo sem histórico. O mecanismo é a instabilidade do estradiol desregulando serotonina, dopamina e GABA. A paciente não ficou depressiva por acaso: está na perimenopausa. A mesma diretriz recomenda antidepressivo como primeira linha — e reconhece efeito antidepressivo do estrogênio em ensaios. Na minha prática, a reposição vem primeiro e o psiquiatra ajusta depois; nunca suspenda o antidepressivo por conta própria.

A pílula, que organiza o sangramento mas não repõe o que falta e sobe o SHBG — mulher que usou pílula por vinte anos chega aos 40 com osso mais fraco do que deveria; peço densitometria na primeira consulta. O SHBG, o exame esquecido do climatério: com ele alto, a mulher tem estradiol “ótimo” no laudo e sente tudo. E a tireoide, que tem receptor para hormônio sexual e sobe o TSH na perimenopausa — por isso não mexo nela primeiro.
Sim. Mulher com sintomas de perimenopausa tem que ser tratada, independentemente do FSH. É a fase mais desafiadora, porque os hormônios ainda flutuam — o ajuste é fino e o acompanhamento, próximo — e é onde está o público abandonado: a mulher de 35 a 45 anos que roda sete especialistas e ouve que não tem nada. O tratamento não é contraceptivo; no climatério ainda é possível engravidar.
Conteúdo educativo, baseado em literatura científica e na experiência clínica do Dr. Pablo Melo. Não substitui consulta, não é prescrição e não promete resultado. Indicação, composição, dose e sequência de qualquer tratamento são definidas na consulta, para cada pessoa. Alguns tratamentos citados são de uso fora de bula.
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